Frugalidade e minimalismo

Qual é a diferença entre vida simples e minimalismo?

O primeiro desses termos que conheci foi o minimalismo, ou mais precisamente minimalism, em inglês mesmo, pois na época não se falava sobre isso por aqui. Isso foi lá por 2010, 2011, alguns pouco gurus americanos já discorriam sobre o assunto e era tudo muito novo. Os anos se passaram, minha jornada começou, e nos últimos tempos o assunto bombou também em terras tupiniquins, finalmente.

Particularmente falando, eu não acompanhei o desenvolvimento do tópico por aqui, nem acredito que fiz parte do movimento. Mas venho me informando sobre o tema e percebi que a receptividade do assunto não foi a melhor, mas o motivo disso é facilmente compreensível. Entende, o minimalismo surgiu como uma resposta ao estilo de vida americano, o American Dream: case com o seu high school sweetheart, entre na faculdade e assuma uma dívida de uma vida inteira, tenham 5 filhos juntos, compre tudo que seu dinheiro puder pagar, tenha uma casa no subúrbio (que lá fora é o melhor lugar para se constituir uma família) 3 vezes maior do que suas reais necessidades (apesar que são 5 filhos, né?), tenha dois carros na garagem e troque eles ano sim, ano não, não esqueça o golden retrivier das crianças, so on and so forth. Traduzindo: tenha uma vida baseada em consumo exacerbado, não meça as consequências disso nem por um segundo, apenas gaste e consuma sempre que possível. Nos EUA as pessoas não comem comida feita em casa, entende? Lá não existe parcelamento no cartão de crédito (aliás, isso é uma coisa tipicamente brasileira).

Eu cresci em uma casa grande no subúrbio de São Paulo (o que no caso quer dizer que o bairro não era super moderno e seguro, mas era mais barato do que a zona central), numa família de 4 pessoas. Minha mãe não aprova comida de delivery, então 90% das refeições consumidas em casa são feitas em casa. Meus pais saem para comer fora em restaurantes no máximo 10 vezes por ano (hoje em dia, porque há uns 5 anos atrás eles só saiam para comemorarmos nossos aniversários, ou seja, 3 vezes por ano pois eu e meu irmão somos do mesmo dia). Sempre vão para os mesmos 3 restaurantes que eles conhecem e confiam há anos. Nós não usamos serviços de faxineira, lavanderia, marceneiro, faz tudo. No máximo vi meus pais pagando para podarem a árvore em frente a nossa casa – quando meu próprio velho não o fazia. Porém, apesar dessa vida que parece tão simples, meus pais tiveram uma infância muito limitada, com restrições financeiras grandes. Somando-se a isso a crise inflacionária dos anos 80/90 que assolou nosso país, gerou-se o hábito neles de comprar coisas em muita quantidade, aproveitar promoções e ofertas como loucos, guardando tudo o possível sempre. O resultado foi que cresci cercada por acúmulos organizados, e aos 20 anos quis buscar uma coisa diferente. Eu tenho uma teoria de que, o que meus pais gastam comprando bananas (sim, as frutas) que eles não conseguem comer antes de estragar pagaria uma viagem pelo menos até o nordeste do Brasil, mas eles nunca sequer entraram em um avião. Minha mãe sonhava em ir para a Disney mas ela já desacreditou que isso vai acontecer. Detalhe: meus pais tem renda o suficiente para pagar uma viagem ao exterior para dois confortavelmente todos os anos.

Minha família não é muito diferente das outras que conheci. Assim como outros brasileiros a grande conquista é o primeiro carro aos 18 anos e o sonho da casa própria aos 40 anos. Os empecilhos são as gravidezes não planejadas logo no início da vida adulta, os lançamentos da Apple, as baladas e a falta de hábito em poupar dinheiro para o futuro. Mas nada disso se compara com o American Dream, não é? O sonho americano não nos representa. Então, acho que é por isso que essa ideia do minimalismo não pegou por aqui. Mas afinal, qual é a diferença entre o minimalismo born and raise in the USA e a vida simples brazuca?

Por princípio, o minimalismo é basicamente ter o que se faz necessário, mas em geral isso se manifesta na forma de um MacBook e um iPhone. Não é sobre ter tudo, mas é sobre ter as coisas certas dentro do que você precisa, seguindo, ainda, uma estética moderna. Você não tem 3 ou 4 pares de tênis, mas você tem um Nike, ou ainda você não mora em uma casa enorme do subúrbio, mas em um apartamento do tamanho de uma caixa de sapatos em algum bairro mais trendy da cidade, cheio de transporte público, Ubers e lojas que cobram 90 doletas por uma camiseta preta básica estilo destroyed. Ou, pelo menos, é isso que parece quando vemos aqueles vídeos no Youtube onde moram nesse apartamento um jovem solteiro, sua samambaia e móveis da Ikea, falando sobre como o minimalismo foi a melhor coisa que já aconteceu com ele. Ou quando vemos como ter um guarda roupa com 10 peças de roupa, conteúdo esse produzido por uma pessoa que mora em um país com duas estações ao ano bem definidas e que trabalha no sofá de casa ou da Starbucks mais próxima, pois não tem um emprego formal das 9 às 5, 5 dias da semana.

Para nós, a vida simples é aquela que nossas avós levavam, que alguns dos nossos tios ainda levam: uma casa simples, geralmente de um andar, com as mesmas panelas de 30 anos atrás, uma cama simples com um travesseiro para cada um, sem roupa de cama combinando. É um toalha de cada tipo, copos de requeijão no armário da cozinha e, no máximo, um computador desktop em uma escrivaninha que já pertenceu a pelo menos duas outras pessoas da família antes de estar ali. É ter uma única roupa para qualquer casamento que possa surgir através dos anos e nem dar bola para a televisão. É ter um cachorro amigo que um dia resolveu te seguir da rua até em casa, e com quem você divide seu arroz e feijão. É ir na feira do final da rua a pé e só comprar alguma coisa para a semana mesmo, porque semana que vem você volta. É lavar com capricho e passar com carinho a mesma roupa que você usa para ir ao trabalho por anos, porque, na verdade, importa mais se elas não são novas ou o fato de elas estarem limpas, bem cuidadas e conservadas mesmo tantos anos depois da primeira lavagem? É trocar uma camisa branca por outra camisa branca e uma calça preta por outra calça preta, ter um chinelo para andar em casa (de meias no inverno, porque ninguém precisa de pantufas), uma sandália para os dias quentes e um sapato fechado para os dias frios. É colocar uma meia para proteger o pé no inverno, mesmo que não combine com o resto do look, apenas para chegar bem ao trabalho, e lá você a tira e ninguém se machucou.

Será que o minimalismo é para os ricos e a vida simples é para os pobres? Se você sentiu aversão ao que descrevi como sendo a vida simples brazuca, então, meu jovem, talvez você ande sendo muito influenciado pelas séries que você vem devorando aos montes no Netflix. Vidas simples custam mais barato, permitem que você tenha mais dinheiro e possa usufruir de experiências mais relevantes na jornada que separa o dia do seu nascimento do dia da sua morte. Não faz diferença se você ganha 1, 10, 100, 1.000 ou 10.000 por mês, porque quem gasta 1 sem pensar direito antes, gastará igualmente 10, 100, 1.000 e 10.000. Acredite, eu fui essa pessoa, às vezes ainda a sou. Mas conforme os anos passaram, percebi que tem coisas que valem a pena e outras que são apenas manifestações de nossos egos. Eu não tenho a mentalidade da minha avó, que tão simplesmente viveu e morreu (estou escrevendo esse post do meu relativamente novo MacBook Air enquanto meu iPhone está casualmente jogado sobre a minha perna), mas minha busca é pelo meu próprio estilo de vida minimamente simples. Meus copos na cristaleira, todos combinam, assim como fiz questão de comprar os pratos mais bonitos que tive acesso nas prateleiras do supermercado, pois acredito que a vida simples não é a respeito de privação, e sim de valorizar e manifestar aquilo que te faz feliz. Tenho dois jogos de toalhas, um branco e um cinza, um em uso e um lavando, e ambos do melhor algodão egípcio e em tamanho gigante. Minha roupa de cama se constitui em dois jogos de 4 peças de cor branca, assim como a saia da cama também é branca e as cortinas do quarto. Comprei tudo em lojas caras, cheguei a pagar mais de R$200 por um dos kits por ser de 300 fios e parecerem um pacote de nuvens fofinhas embaladas só para mim, mas quando minha sogra quis me presentear com outros dois jogos extras eu firmemente agradeci e disse que apenas precisava de dois pois para nós é o suficiente, mas que estava disposta a aceitar de presente as toalhas que me faltavam para compor meu kit de 4 peças que mencionei agora a pouco. Isso não parece simples, mas eu sei que daqui há dez anos serão os mesmo lençóis brancos na minha cama, e as mesmas toalhas felpudas penduradas no banheiro. Talvez os copos se quebrem antes, mas tudo bem, porque até lá já teremos, com certeza, uma fantástica coleção de copos de requeijão.

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One Comment

  • maju

    Achei muito interessante essa reflexão. Acho que a chave se resume na ” busca é pelo meu próprio estilo de vida”, seja minimalista, vida simples, ou o que for que te deixe realmente feliz. No meio de tanta “cagação de regra” (com o perdão da palavra), é necessário um certo esforço em se olhar pra dentro e avaliar o que te faz feliz, o que você sonha, e separar isso do que enfiaram na sua cabeça que é uma necessidade. A partir do momento que você interpreta o interior, o exterior passa a ser um reflexo disso. É claro que não é uma tarefa fácil, mas vale a pena (ou talvez eu esteja só #*&@!* regra)

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